domingo, 12 de outubro de 2014

Maladaptive daydreaming

  A regra é clara: quanto maior a expectativa, menor serão suas chances daquilo acontecer. É quase uma espécie de super poder, quando mais tempo você perder mentalizando fogos de artificio em uma faísca, menor serão suas chances do seu céu se iluminar.
  Mas se você for do signo de peixes esse super poder vira uma espécie de Hulk em você, não adianta fugir, se atarefar, se isolar, quando você menos esperar vai se pegar ouvindo aquela música imaginando sua vida em uma cidade no exterior bem sucedida e linda. Chances disso acontecer? 0,01 em 1 milhão. 
  Aos 12, imaginava me imaginava estudando na Itália, nadando com os golfinhos e morando sozinha. Aos 21 continuo imaginando, na casa dos meus pais um pouquinho longe de se formar adiando os sonhos para o mestrado. Precisarei talvez de ajuda se continuar com essa mentalidade no doutorado.
  Nos meus sonhos (acordados por sinal) já fui bióloga, atriz, cantora, modelo internacional, escritora de best-seller, já ganhei o Oscar e 3 prêmios Nobel. No momento sou uma Perita renomada like a CSI milionária. Estou com sérios medos de ler isso no futuro sendo balconista do Mc donald's aos 30.
  Desde minha pré adolescência até agora já criei expectativas com tantos homens que acho que lotaria o estadio do maracanã. Preciso dizer que continuo solteira?
  Já tentei todo tipo de dieta emocional possível mas me rendi e procurei o melhor psiquiatra que existe: Google. Segundo esse especialista sofro de Maladaptive Daydreaming que é um termo criado por um psicólogo traumatologista da universidade de Israel para designar pessoas que possuem compulsão em sonhar acordado. Descobri enfim que meu super poder tem nome, mas que está mais para câncer do que para um dom. Estudos apontam que este não possui cura e que passarei meus 80 anos sonhando acordada sobre como será meu enterro.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Os Três Mal-Amados

João Cabral de Melo Neto

   O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
  O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
  O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames
  O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
  O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
  O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
  O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
  O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
  O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
  O amor comeu minha paz e minha guerra Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Gosto de copos transbordando
lugares lotados
falta de espaço
me apavoro com o escasso

Minhas estantes são cheias,
minhas mesas fartas,
minhas bolsas lotadas,
meus horários sobrecarregados,
meu currículo é repleto,
minha agenda é imensa,
minha vida é saturada.

Sou lotada de espaços,
cheia de faltas,
preenchida por nada.

Me transbordo de sinônimos de grandeza
pra na verdade
esconder minha imensidão de vazios.


sexta-feira, 7 de março de 2014

Lógica Anti-JohnMayerana

     Sempre questionei a aversão da sociedade na questão de precisar de alguém para esquecer outras pessoas, concordava com todos os quesitos e requezitos, inclusive retratava como um "empurrãozinho" básico para sair do passado. Até que percebi que isso faz tanto sentido quanto usar uma toalha molhada para se secar. No início é ótimo antídoto para distração, daí você começa a procurar desesperadamente a outra pessoa nas novas, tenta achar logo os que possuem a mesma receita,desde as coisas boas até os defeitos, até as velhas manias você espera encontrar. Você se vê em busca de um clone de um erro. Pode ter todo o charme do mundo, pode ter o romance que for, pode ter o mínimo de defeitos que for que ao menos sempre terá um: não será aquela pessoa.
    Mas claro que você só percebe isso tudo quando se torna coadjuvante da música "I'm gonna find another you" do John Mayer.Quando você não é nem 'aquela pessoa', nem o sujeito, é a distração.O que escrever?É observar um poema ser escrito o tempo todo, mas as palavras são feitas de outra pessoa, você é o espaços.De repente todos os seus diferenciais são coados, até descobrir que a sua comida favorita, seu filme favorito  ou o sabor de pizza que você mais gosta  possuem uma estranha coincidência. É como andar na pontas dos pés em um trilho construído por outra pessoa. solução? procurar outra estrada e começar a trilhar o seu próprio caminho, pois o trem pode ainda voltar e você será o único a se machucar.Mais que isso, não tornar a maldita música do John Mayer um ciclo e transformar outra pessoa o seu antigo personagem.Não se esquece alguém procurando outra pessoa exatamente igual, por mais perfeito que tenha sido.Nenhuma pérola é igual a outra, então ou volte atrás procure a mesma pérola ou aprenda a diferenciar o brilho das outras conchas.

A felicidade é um Fast-food

Talvez a felicidade na vida esteja mesmo nas coisas totalmente desnecessárias.A garantia da felicidade futura talvez até esteja nas obrigações diárias, mas o supérfluo com certeza é aquele chocolate no meio de três dias de salada para emagrecer. O supérfluo serve para engordar a alma, são as calorias que vão direto para auto-estima.São os quilinhos a mais nas boas memórias. A felicidade por esforço é recheada pela vitória e orgulho, mas não claro que o humor de alguém que depois de 5 anos passe em medicina seja menor do que um torcedor em um estádio.Sim, são coisas totalmente diferentes talvez ligadas pelo êxtase da alegria,mas se colocadas em uma balança, há muito mais pureza nos momentos de felicidade que não vão mudar em nada em 1 hora depois, são os que não contém peso, são as calorias invisíveis que preenchem a alma. Todos ficam felizes em começar uma dieta, mas a verdadeira alegria mesmo estar em fugir dela de madrugada. Todos amam entrar numa faculdade ou começar trabalho desejado, mas o bom mesmo são sempre as férias. Todos se apaixonam pela pessoa em si, mas a felicidade mesmo são nas pequenas manias que quase duram um segundo. A felicidade é esta no detalhe da vida. É o que não veio na receita.É o improviso.

domingo, 2 de setembro de 2012

À espera de um dia em que qualquer coisa possa me fazer chorar : Dor de cabeça, ansiedade, raiva, mal estar, tombo, carência, cólica, tpm, comercial de detergente, vestibular, trabalho de faculdade, filhote de cachorro abandonado, assalto.
Qualquer coisa.
Menos você.

Quando o Fim vira um paradoxo.

    E continuo nessa minha busca incessante de tentar descobrir o porque dessa minha mania horrível de cutucar feridas antigas, de reabrir o que parecia já ter sarado.Por que não basta se apegar ao que faz bem, eu com a minha consciência já condenada à eutanasia, busca se apegar até mesmo ao que já não é agradável - e por tanto tempo se contentando com isso, tornou-se um vício - justificado talvez pelo mero prazer de querer sentir alguma coisa, mesmo que não seja algo bom, só para pelo menos ter o que sentir. 
   Parece loucura (e é), mas não consigo parar de reler várias vezes o final desse livro, de todas as formas possíveis, ou até impossíveis, para procurar em entrelinhas respostas de fatos que de tanto ler, acabei descobrindo que tinha mais finais do que imaginei, e poderia ter acabado muito antes, não por falta de personagem, mas por falta de amor.
    Já até decorei todas as suas falas em todas as formas de despedida, e mesmo relendo pela enésima vez ainda fico na angustia de poder ser diferente, ou pelo menos encontrar um detalhe que eu não tenha percebido antes para finalizar de vez. Mas acho que é esse apego nosso que não nos faz fechar o livro, ou pelo menos nos deixa na tentativa de escrever outros finais em rascunhos para um livro que já foi lançado, e acabamos sempre vivendo um romance que já não nos pertence mais.
    Algo interessante são os últimos parágrafos desta saga, que ao ver você partir e me repartir, é quando penso o quanto eu não imaginei que você me fazia mal. Mas me enganei, errei o vilão. Descobri que quem me fazia mal era eu mesma.